Expressão · Presença · Afeto
Gastronomia Afetiva:
quando cozinhar é uma forma de amar e de existir
Ao longo da vida, tive a oportunidade de estudar gastronomia em diferentes contextos. Realizei cursos em Paris, formação em gastronomia funcional em Portugal, além de workshops, capacitações e cursos de extensão em instituições brasileiras voltados para diversas técnicas e tradições culinárias.
Embora essa formação tenha ampliado meu conhecimento e repertório, a gastronomia nunca se tornou minha profissão principal.
Minha trajetória foi construída no jornalismo, na comunicação, na escrita e no desenvolvimento de projetos. A cozinha ocupou outro espaço na minha vida: o da expressão.
Sempre enxerguei a gastronomia como uma linguagem. Enquanto meu trabalho comunica por meio das palavras, a culinária me permite comunicar por meio dos sabores, dos aromas e das experiências compartilhadas.
Mas existe algo ainda mais profundo nessa relação.
Quando cozinhar deixa de ser uma obrigação, transforma-se em arte.
Transforma-se em terapia.
Entre pesquisas, livros, reuniões, projetos e a maternidade, a cozinha tornou-se um espaço de pausa. Um ambiente onde não existem métricas, cobranças ou expectativas externas. Existe apenas o prazer de criar.
Há algo profundamente humano em transformar ingredientes simples em algo capaz de reunir pessoas ao redor de uma mesa. Em observar uma massa fermentando lentamente. Em preparar uma receita sem pressa. Em compreender que cada processo tem seu próprio tempo.
Talvez seja justamente isso que mais me encanta na gastronomia. Ela nos ensina a respeitar os processos.
Nem tudo acontece quando queremos.
Algumas coisas precisam amadurecer.
Precisam descansar.
Precisam encontrar o momento certo para acontecer.
Na cozinha, aprendi que a pressa raramente produz os melhores resultados. E essa talvez seja uma das maiores lições que ela oferece para a vida.
Não cozinho para impressionar. Não cozinho por obrigação. Cozinho porque me faz bem.
Porque existe prazer em criar algo com as próprias mãos.
Porque existe beleza em compartilhar.
Porque algumas das memórias mais importantes de uma família nascem justamente ao redor da comida.
Como mãe, percebo que cozinhar também é uma forma de construir vínculos. Muitas conversas acontecem entre uma receita e outra. Muitas lembranças são criadas enquanto a mesa é preparada. Muitos ensinamentos surgem sem que ninguém perceba.
Por isso, apesar da formação e dos estudos, a gastronomia ocupa em minha vida um lugar muito diferente da profissão.
Ela é uma forma de expressão.
Uma forma de autocuidado.
Uma forma de presença.
Uma forma de amor.
Assim como a escrita traduz pensamentos, a gastronomia traduz sentimentos.
E talvez seja por isso que algumas receitas permanecem na memória por toda a vida. Não pelos ingredientes que carregam, mas pelas histórias, pelos afetos e pelas pessoas que representam.
Para mim, a gastronomia não é trabalho.
É arte.
É terapia.
É uma das formas mais sinceras que encontrei de me comunicar com as pessoas que amo e, ao mesmo tempo, comigo mesma.
Diane Leite
Jornalista · Editora · Autora · Eterna aprendiz da arte de transformar ingredientes em memórias